Anotações oníricas [Viagens ao dormir]

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Eu nunca tinha sonhado com o meu padrinho e pouco falo dele. Mas lembro bem que no dia da sua morte tive uma sensação estranha de orfandade, que nem sei explicar.

Severino – ou tio Sevi – era o irmão mais novo da minha avó materna. Esquisitão e calado, ele morava em um quarto da casa da minha avó. Lembro bem dele de pijama, com a camisa do pijama aberta e os chinelos sendo arrastados pela casa. Nunca havia se casado. No fim da vida, se casou, mas eu nem cheguei a conhecer sua mulher.

Essa noite tio Sevi veio me visitar. E eu estranhei ter sido logo na noite seguinte ao Dia de Finados. Fiquei com uma sensação de culpa, por nunca ter visitado a sua sepultura – nem a da vovó. No sonho ele estava como era: caladão e um tanto sério, mas também pronto para uma graça ou risada a qualquer momento. E ele me contava que a vovó dizia que ele nunca havia se casado quando era moço porque uma namorada dele chamada Julieta havia morrido muito jovem. Ele me mostrava, surgia do nada, do nosso lado, a sepultura da Julieta. Era um buraco no chão, em formato de cruz. Mas ele contava tudo isso rindo, gargalhando mesmo.

Acordei com a tal culpa – talvez uma culpa maior, que tenha a ver com o fato de eu nem rezar mais – e com saudade do meu padrinho.

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